Sempre acreditei que nos lugares menos possíveis é possível ganhar conhecimento, mesmo que de cultura inútil. Costumo voar por ares claros, nublados, nebulosos e sombrios. É a mescla de todos esses ambientes que me faz entender um pouco as diferenças sociais e culturais existentes em uma comunidade.
Os botequins são fontes infinitas de informações. Pode parecer que não, mas neles as pessoas destilam conhecimentos de todas as categorias. Falam a respeito de política, de futebol e de religião sem o menor constrangimento. E todos, ou quase todos, acreditam que sempre estão absolutamente certos.
Nesses pequenos bares, às vezes de tábua, outras de tabique ou alvenaria, o visual é sempre surpreendente para os mais observadores. Na parte de cima das prateleiras dezenas, talvez centenas de garrafas de cachaça de todos os nipes. No segundo andar do depósito aquelas famosas misturadas e seus sabores. Jucá, boldo, malva, imburana, cravinho, canela, laranja, abacaxi, enfim, pinga com cheiro e cor diferente tem para todos os gostos.
Ao lado das prateleiras entupidas de cachaça, uma geladeira e um freezer que acomoda a cerveja, o refrigerante (muitos gostam de misturar com cachaça), água e o resto da comida do dia anterior.
Numa pequena mesa num dos cantos do cubículo, um aparelho de som e um monte de cds piratas de Amado Batista, Barto Galeno, Valdik Soriano, Alípio Martins, Berg Guerra, Calypso, Forasteiros do Forró, Jabuticabas do Forró, Juazeiros do Forró, Aviões do Forró, Gaviões do Forró, Calcinha Preta, Branca, Vermelha, Cor-de-Rosa, resumindo, uma pilha de discos de qualidade duvidosa.
No balcão normalmente tem uns dez copos sujos e com moscas mortas, um cocho cheio de sal, um prato com fatias de limão, carambola ou acerola (isso só nos mais sofisticados) e um isqueiro amarrado.
Na parte exterior algumas mesas e poucas cadeiras, uma mesa de sinuca, bancos e muretas que servem de escora para quem experimenta todos os tipos de bebida. Normalmente você encontra um ou dois em estado etílico avançado, chamando José de João e elogiando uma mulher bêbada com visual de filme de terror trash. Nos fundos um único banheiro sem cobertura e com um pano servindo de porta. A privada é um buraco no chão cheio de pequenos bichos brancos que parecem sobreviver dos restos de vômito e fezes dos fregueses do botequim.
Porém, o que mais interessa nesses ambientes são os tensos debates e embates promovidos por atores de todas as classes sociais. Isso mesmo! Nos botequins parecem pessoas das classes A, B, C e, claro, a maioria da classe D. Mesmo assim não podemos subestimar a inteligência e o conhecimento dessas pessoas.
Nos últimos anos freqüentei vários desses ambientes, não só para observar, mas para participar como ator. Entre cervejas e umas doses de cachaça misturada ouvi muitas histórias que vão desde a utopia à crença. Desde a realidade ao ouvi falar. Desde a mentira até a verdade.
Histórias de Botequim é uma inserção neste mundo paralelo vivido por personagens que criaram seu próprio mundo. É a narrativa de argumentos e contra-argumentos, acrescida da participação do autor como coadjuvante.
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